Eu pisava nos Cristais Distraída.
Verônica Aroucha
Como poderia ter se modificado tanto? Não foi uma mudança qualquer, uma alteração nos gestos. Foi uma mudança no limite, isso. Não, nenhuma palavra exprime aquele novo estado de ser.
Não dei por mim quando mudei. O lenço era mais comprido do que o véu da noiva. Mas era salgado onde lágrimas pareciam minúsculos cristais. Estavam enxutas, finalmente. Quando o Sol batia sobre eles, quem os vissem diriam que eram Estrelas de cores variadas – azul, rosa, verde, laranja.
Quem já viu um Arco-íris assim? Menina chorona de riso fácil. Agora as lágrimas eram mais da natureza do que do sentimento. Chuva de Caju. Seu coração desertificou, sem dar na vista, não sabia que ficaria como alguém que já se foi. Não lhe cabia um lugar qualquer.
A mobília da sala parecia-lhe tão ridícula. Detestava a monotonia das flores plásticas, plácidas e indiferentes.
Às vezes, desconfiava se existia mesmo, tanto lhe palpitava a vida, entrando pelos poros na mesma intensidade de quando escorre o suor após a exaustão da alegria. Cada minuto, cada hora desfilavam em cima da minha alma com a nitidez de um relógio de parede, que toca para avisar do tempo.
O tempo para cá já é outro e não importa mais. Escuto uma música, Bolero de Ravel e um frêmito tomam conta de mim.
Tudo isto acontece, como já disse, porque virei um deserto onde tenho um espaço imenso para correr e encontrar as flores.
Quinta-feira, 4 de Junho de 2009
Sexta-feira, 15 de Maio de 2009
O Novelo

Naquela altura da vida o medo era um sentimento longínquo. Não caberia sentir. Nem mesmo ansiedade. Como ter medo de viver? A vida passava e muito já se fazia claro, desvendando seu íntimo.
Não era mais criança. Nem mesmo jovem. Era uma mulher vivida pelas luas, sugada pelos momentos a fio. Como se fosse um novelo sem fim. Por que tanto medo? Olhava-se no espelho poucas vezes. Não gostava de mirar-se - nem antes.
Gostava de ser escorregadia, ligeira, se resguardando em si mesma. Melhor dizendo, não gostava. Era. Ela nasceu assim, complicada e tão fácil de não ser nada. A vida lembrava-lhe uma roda gigante e ela não descia nunca. Tão fácil, era só pular da cadeira próxima ao chão, e correr. Correr para encontrar vida. O que seria?
O medo, muito medo. Só faltava um pouco de coragem para tudo se desfazer. Era o momento do inverso, da câmara lenta andando para trás. Não pelas gavetas, fotos. Era outra coisa. Precisava perder o medo, antes que perdesse o trem. Medo de avião é ridículo. Passaria uns dias fora, depois voaria sem dó.
Berenice, não mais Berê, já não chorava. Nem sentia pena. Só perguntava aos quatro ventos, por que o amor acaba? Para onde vai? Some e deixa um precipício, uma cacimba sem água. Dá muito medo.
Alguém, alguém havia lhe dado um abraço. Pequeno aconchego durante uma chuvarada. Deus, o medo, o medo da vida poderia passar. Começou a temperar o feijão, daquele jeito de antes. Com verduras e pouco sal. Cheirava no fogão. Há muito tempo não sentia tanta fome.
Sentou-se perto da porta, afagando os gatos da casa vazia.
Verônica Aroucha
Terça-feira, 28 de Abril de 2009

Frutas
Existe em ti uma lembrança.
Lembrança de outras eras.
Como as passas
Uvas camufladas em pitombas infantís.
Teu pomar é um grito agudo
Com lágrimas soltas e contidas – não espantar o sabiá.
Existe em ti o sabor de uma doce vida.
A vida, a vida tua.
Alma limpa como um cristal.
Vejo árvores e bons frutos:
Pitombas, laranjas, maçãs.
Vejo o verde dos canaviais.
Verônica Aroucha -
Abril, 22 de 2009
Domingo, 19 de Abril de 2009
Um Dedinho de Prosa
Sexta-feira, 10 de Abril de 2009
MUNDO LOUCO

Mundo louco
Vivemos em um mundo cada vez mais louco – um clichê mais que usado. Abusado mesmo.
Quando não temos nada para dizer diante de tantas vozes dentro de nós; como a nossa consciência, observação, nossas... Palavras que faltam por carência de concentração, interesse?
Mas é fato: Mundo Louco. Sempre foi, desde o início, período da explosão cósmica.
As guerras, cataclismos e neuroses.
As neuroses continuam. Diferentes na forma de cuidar e encarar. Incrível, pior do que uma chuvarada inesperada, sem sinal, estupenda como o nascer do Sol. O mundo está lá fora, ou aqui dentro? Ficamos dentro de casa digitando mensagens para pessoas que nunca vimos. Algumas conhecidas, outras, não passam de almas com seus desejos de aglutinação, de simbiose.
Mundo louco, mundo moderno, pós-moderno, e depois do tal “pós” o que teremos? O Mundo está aí – todo mundo grita, todo mundo fala. Mas onde está o mundo? Onde estão as pessoas, gente!
Estamos todos no computador. Isso. Salvamos nossas imagens, afinal. A Era do Gelo, ou da solidão? Não é nem a dois. É a mil por hora. Meu vizinho do lado, pouco encontro no elevador; cumprimentamos aos presentes no tal espaço, quase com receio, com vontade de trocar duas palavras, de dar um sorriso, mas na maioria das vezes falta o encontro dos olhos.
Podemos nos encontrar, fazer um pacto de amizade no ORKUT, ler blogs, sites, etc.
O século da informação em um segundo, entrar no barco a qualquer hora da conexão. Não precisamos bater palmas, pedir licença para entrar, pedir um analgésico. Conversar, conversar.
Podemos telefonar, mandar um e-mail contando nosso rosário de penas... Não é uma boa.
Aí me dei mal – Precisamos sorri, aparecer nas fotos alegres, saudáveis e totalmente felizes e sem dramas. Não podemos ser taxados de problemáticos no campo virtual ou real.
“Alice no País das Maravilhas”, para sermos aceitos, adicionados e queridos. Se esbanjarmos títulos então, é o bicho, a glória do apogeu!
Digo, o mundo é virado, mas estou nele. No ORKUT, no BLOG, nos GRUPOS.
Diante da falta de porta e de canal temos com quem conversar, MSN... Onde não temos medo nem vergonha de demonstrar ternura, carência e amor que vive em nós. Amor pelo semelhante, pelo igual – o que todos somos.
Viva a comunicação que nos resta. Viva a Internet com suas carinhas de animação, suas estrelas brilhantes e rosas, muitas rosas que abrem. Rosas tão lindas, tão pobres por faltar o perfume...Do coração.
Verônica aroucha - Sábado de aleluia, 2009.
Quinta-feira, 2 de Abril de 2009
EXTREMO

Extremo
Se eu pudesse deter a juventude dos que se foram,
A saudade que sinto dos outros que irão chegar.
De tudo que não verei...
Se eu pudesse deter – e entre mãos apertar
O sorriso
A fumaça com cheiro de arroz.
Se eu pudesse segurar o instante...
Alcançar uma estrela nova que nascerá
Uma nascente de água limpa
Que muitos irão se banhar.
Se eu pudesse alcançar a criança
Nela depositar todas as alegrias do mundo
Fazendo um balanço...
E, pegando no ar
Tudo o que me pertence.
Se eu pudesse...
Verônica Aroucha
Abril - 2009
Segunda-feira, 23 de Março de 2009
VIDA
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